segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Carnalismo - Tribalistas

No rastro do seu caminhar
No ar onde você passar
O seu perfume inebriante
Pendura num instante,
A rua inteira a levitar
Me abraça e me faz calor
Segredos de liquidificador
Um ser humano é o meu amor,
De músculos , de carne e osso,
Pele e cor.
No rastro do seu caminhar
No ar onde você passar
O seu perfume inebriante
Pendura num instante,
A rua inteira a levitar
Me abraça e me faz calor
Segredos
Um ser humano é o meu amor,
De músculos , de carne e osso,
Pele e cor.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Psicose cristalina

A dor aparece
Alucinação não se esquece
A dor continua
Naquela pele branca, nua

Um, dois, três, quatro.





Não há tempo pra teatro
Não há personagens
O exímio se foi
Fracassado já não sois?

Quase não há  salvamento
O  que há é o tormento.
Aluimento.

Coração acelerado
E o sentido altera
Não há espera
Já está tudo aceirado

O tempo não termina
E mais uma vez
Metanfetamina na hemoglobina





Capetalismo

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Desejo quimérico


Na noite fria
Há um globo prata
Que cintila a esperança
Na veemência dos fatos

Há um desejo.

Desejo quimérico, romanesco
Presente na eloquência de um ser
E na ausência de ensejo

Desejo inexato, atónito.
Inesperado.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Gotas de orvalho



A menina chorava
Chorava um choro triste
Um choro de desespero
Que não podia mais conter.
Não havia para onde correr

Suas lágrimas eram frias
Seus pensamentos,
vazios, complexos e inexistentes.

A menina chorava.
Chorava um choro sem sentido,
Um choro que acostumava
E que não havia sonido

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O incomum

A pouco mais de quatro anos me casei com Florença. A conheci quando fui à casa de  minha mãe fazer uma visita. Ela era a nova vizinha. Sempre que eu podia e sobrava tempo, a visitava.
Com o tempo fui apegando-me à ela. Mas depois percebi que não era o que eu esperava. Gostava dela e tudo, mas de uma maneira diferente. Talvez ela não compreendesse o que eu sentia e pensava à respeito das coisas.
Com o tempo nós brigávamos muito. Por motivos bobos, mas sempre encontrávamos tempo para isso.
Ela tinha depressão, depois que o nosso filho nasceu morto.
Pedi a separação, porque descobri que sou gay.
Foi há pouco tempo. Marcos, amigo de Florença era gay. Nunca fui com a cara dele, pra falar a verdade, mas de uns tempos pra cá, tivemos de fazer muitas coisas juntos. Comecei a observá-lo de uma outra maneira. Uma maneira à qual nem eu acreditava que pudesse estar acontecendo. Era uma estranheza sem tamanho.
Muitas vezes eu o olhava e nossos olharem encontravam-se e eu, desviava de uma maneira nada discreta.
Não quis contar nada à Florença. Ela já estava muito doente; tinha pensado até em suicídio, mas não teve coragem de levar até o fim. Imagina se eu contasse, ainda mais com seu grande amigo.
Não queria mentir. Então omiti os fatos.
Ele era fotógrafo e eu, um jornalista.
Foi em nosso 4º trabalho que houve nosso primeiro beijo.
Eu, depois, não sabia o que dizer. A situação era estranha. Nunca havia passado por isso antes;e de repente já estava apaixonado.
Florença sempre me perguntara se havia feito algo de errado e eu sempre dissera que não.  Ela era perfeita. Mas não para mim. Acho que o 'problema' estava comigo...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ausência

Em uma noite escura 
A simplicidade aparece
A calmaria me guia
Juntamente com a sintonia
O frio me aquece

Há uma estranheza
Aparentemente inexplicável
No acaso e no querer
Ambos andam juntos
Em um emaranhado
De pensamentos inacabados

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Cristal

Eu era um médico. Diziam que eu era louco, problemático, por querer salvar vidas que já não podia-se fazer nada além de esperar a morte.. às vezes eu ligava sim para o que as outras pessoas falavam da minha profissão e de tudo mais. Eu ficava triste. Meus dias não eram dos bons não. A cada plantão no hospital era uma morte interior.
Todas aquelas pessoas morrendo por dentro e por fora. Todas sofridas. Ficavam ali, nos corredores, em macas improvisadas. Cada dia era uma luta. Chegava em casa e ao deitar-me, minha esposa perguntava-me o que havia de errado comigo; e eu sempre ficava quieto, pensando. Talvez não estivesse nada de errado comigo, mas com o mundo. Um mundo cruel. Os humanos o tornaram assim.
Pegava-me com esses pensamentos a quase que todo o tempo. Não havia como não pensar.
Eu deveria virar um palhaço; afinal era isso o que diziam à meu respeito. Diziam que eu não levava minha profissão a sério. Mas ninguém via os perrengues que eu passava durante a jornada de trabalho..
Estava tomando café quando meu telefone tocou. Era do hospital. Uma emergência.
Não terminei de tomar café. Peguei um pedaço de pão e fui correndo até o carro. Não me disseram qual era a emergência.
Ao chegar no hospital próximo onde morava, deparei-me com uma menininha; devia ter uns seis anos de idade e ela não tinha cabelo. Tinha câncer no sangue e estava caminhando para a fase terminal. Ela quase não falava. Era muito esforço para uma pequena menina.
Seus olhos eram castanhos claro. Olhos que nunca mais vou esquecer. Olhos que pediam socorro. Foi quando eu disse que seus olhos eram lindos ela me respondeu que só queria ser uma criança normal.
Não pude me conter. As lágrimas derramaram rapidamente e aquele momento foi único. Senti que deveria abraçá-la. Ao menos um abraço confortante poderia amenizar a dor e o sofrimento de tudo aquilo que ela estava passando. Abracei-a e pude sentir em seu frágil abraço, a ponta de esperança que ainda restara em seu coração. A esperança de que aquela doença pudesse ir embora, e que em breve ela pudesse voltar a brincar de boneca com as outras meninas.
As sessões de quimioterapia a deixavam muito fraca.
Eu ali, pudera sentir seu sofrimento como se eu estivesse em seu lugar. Aqueles olhos lindos gritavam o que ela não pudia declarar.
A sessão acabou e ela foi para o quarto, repousar.
Já estava quase na hora de meu turno terminar e fui trocar de roupa. Abri meu armário e lá encontrei um antigo nariz de palhaço. Não pensei duas vezes. Coloquei-o e fui até o quarto onde ela estava.
Ao chegar no quarto, ela estava dormindo. Mas quando cheguei perto, seus olhos abriram-se e uma pequena lágrima de felicidade escorreu, e ela sorriu levemente. Comecei a cantar umas cantigas que minha mãe costumava cantar para mim quando eu era pequeno.
Seu semblante era outro. Fiquei ali durante uma meia hora e pude sentir, verdadeiramente, que a felicidade finalmente a tocara.
Fui para casa descansar. No outro dia logo cedo, fui para o Hospital e recebia  mensagem de que após a minha saída na noite anterior, ela entrara em coma profundo, não resistiu e acabando por falecer.
Nunca pude esquecer-me daquela linda menina..daqueles olhos que brilhavam e que ao mesmo tempo esperava por um fim. O fim da dor.
Agora ela não poderia mais sentir dor. Poderia finalmente descansar.
Seu nome não sai de minha mente.
Cristal.

O que quase domina

Olhares se cruzam
E não.
Respiração ofegante
Diz pro coração
Onde está a emoção?

Está encapada pelo medo
Quase sempre é segredo
O que há de se sentir
Por um segundo quer em confundir

Ainda sou a garota das covinhas
do coração palpitante
Da respiração ofegante
Ainda sou a garota dos olhos brilhantes,
Quase  como diamantes

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ser feliz e não saber

Era de tarde e eu tinha de fazer um trabalho na faculdade com o João. Combinamos de nos encontrar dentro do shopping, em frente ao cinema, porque a próxima à esquerda era a saída para a faculdade onde estudávamos. Finalmente ele chegou e lembrei-mede que havia esquecido minha pasta em casa. Pedi que ele me esperasse por alguns minutos, afinal eu morava até que perto dali.
Fui caminhando até o ponto onde meu ônibus passava. Senti, de começo, uma leve tontura; achava que era por eu não ter me alimentado muito bem naquela tarde. Entrei no ônibus, passei pela catraca e sentei-me longe das pessoas. Estava muito calor e procurei um assento onde eu pudesse respirar um pouco mais de ar puro. A tontura continuou por alguns minutos, mas depois acabou.
Cheguei em casa, lavei o rosto e tomei um remédio pra dor de cabeça. Liguei pro João e disse que havia chegado e iria pegar minha pasta. Peguei a pasta e uma barrinha de cereal no armário, para quando eu estivesse com fome mais tarde.
Fui para o ponto de ônibus andando. Peguei o primeiro que passava até o shopping onde o João me esperava. Desci e fui até onde ele estava. Finalmente poderíamos ir para a faculdade fazer o trabalho.
Fiquei lá até umas sete e meia. Estava exausta e com dor de cabeça.
Mas como tinha remédio na bolsa, não estava tão preocupada. Eu queria era ver um filme no cinema, ou uma peça de teatro.
Fui ver uma peça que estava em cartaz há algumas semanas e que eu, particularmente, saberia que iria adorar.
Na fila, quase que já para entrar, entreguei meu ingresso e logo na frente havia um homem vendendo pipoca e eu comprei. Fui procurando no teatro, qual era o lugar da minha cadeira.
Sentei-me ao lado de um homem de aparência jovem, que por sinal era muito simpático. Ofereci minha pipoca à ele, mas ele não quis.
A peça começou e não ouvia-se nada além das falas dos atores que estavam no palco. Um imenso palco.
Passaram-se duas horas e todos já estavam saindo para fora da sala de teatro. O simpático moço jovem que sentara ao meu lado na peça, encontrara-se com amigos ao sair do teatro e eu fui embora para casa. Trocamos e-mails, assim poderíamos nos corresponder mais.
Cheguei em casa, larguei a bolsa no sofá da sala e o sapato o chão do quarto; voltei para a sala e deitei-me no sofá, de uma maneira muito confortável. Liguei a televisão. Não havia nada de interessante.
Deixei a televisão ligada e fui tomar banho. O banho, como de costume era quente, muito quente. Ao terminar eu podia sentir o vapor em mim. Era o que eu mais gostava de ver. A fumaça quente subindo até meu rosto.
Desliguei a televisão e fui dormir. Deitei na cama e dormi.
O relógio despertou ao som de Jeff Buckley - Hallelujah - ; a música invadia meus ouvidos e eu ali, ficava apreciando cada palavra que ele dizia. A cama estava tão confortável que nem sequer eu abrira os olhos. Queria ficar ali eternamente ouvindo aquela música..
Abri os olhos. E nada. Não enxergava mais nada. Nada além da escuridão. Lágrimas escorriam de meu rosto e a música ainda continuava de fundo. A música que antes eu achara tão linda, agora não passava de uma tortura para meus ouvidos.
As lágrimas continuavam ali e não cessavam. Eu não poderia compreender como eu pudera ficar cega da noite para o dia.Literalmente.
Perder a visão é perder a vida.
Olhar era o mais importante.
Agora como seria minha vida dali para frente?
Simplesmente Não seria!
Como eu poderia viver sem ver as coisas, as cores das coisas, o formato..
Já ouvira vários casos de que pessoas acordaram cegas, mas eu dizia que nunca aconteceria comigo..Eu era tão saudável.
Não haviam históricos de cegueira ou problemas na visão em minha família.
Não levantei da cama. Fiquei ali,deitada.
Liguei para o João e disse-lhe o que havia de fato acontecido. Ele não pensou duas vezes. Foi até onde eu estava. Ao chegar, bateu na porta do apartamento. Por sorte, a porta estava aberta. Ele perguntou-me como havia ocorrido e eu não sabia explicar. Pude sentir seu desespero ao tocar minha mão. Disse à mim que iria buscar ajuda.
Eu não poderia esperar mais. Fiz o que havia de ser feito.Em meu criado-mudo haviam caixas de remédios que minha avó usava. Tateei até achar todas e tomei os comprimidos de uma vez, sem água.
Pude sentir o sangue subir até a cabeça e então, não senti mais nada.