sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Não aqui

Que sensação estranha essa de não saber qual sensação é.
De não saber quantos passos são de Marte até Vênus.
De não saber se estarei aqui ou lá.
De não saber.
Passado o passado, há uma renovação, mas o passado há passado?

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

No abismo,eu

No abismo eu vejo tudo de baixo.
Todas as formas esquisitas do céu. É escuro.
Sinto as sombras perto de mim, tentando me fazer triste.
Tento sorrir pra elas mesmo sabendo que vou fracassar. A sensação de estranheza e adeus permanece em mim.
Estou onde quero estar, mas não estou por completo.
Estou em cada parte. Estou em partes.
Recomponho-me a cada passo.
E a cada passo me desfaço.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O último suspiro

Na manhã de neblina, duas pétalas caíram das mãos dela.
Sua vida se despedaçava como uma rosa. De uma maneira doída mas ainda assim, não perdera o seu brilho
Eram tantos os acontecimentos. Tristeza em demasia, euforia, em partes a felicidade, a saudade. Tudo era muito intenso e a deixava um pouco desnorteada.
Nada fora do comum. Ia sempre aos mesmos lugares, com as mesmas pessoas e fazer as mesmas coisas.
Um dia, como de costume, foi jogar cartas com sua avó que já era de idade. Para passar o tempo e afinal, a menina amava fazer aquilo com a vó.
Gostava das cartas do baralho. Um baralho importado, que sua avó havia conquistado em seus tempos de riqueza. As cartas eram pequenas e ficavam dentro dentro de uma caixa gasta pelo tempo.
As duas passavam horas e horas juntas. Ou inventando algo na cozinha ou jogando cartas. Ou as duas coisas. Enquanto o bolo de fubá assava, não perdiam tempo com as cartas.
O bolo sempre estava uma delícia, mas a avó sempre dizia que havia faltado algo. Ou havia açúcar demais, ou havia fermento de menos...
A menina achava graça  de suas respostas. Antes mesmo de a avó responder-lhe, em seus pensamentos as respostas já haviam se formado primeiro, porque sempre era a mesma coisa. Coisa que divertia em demasia a menina.
Tudo andava bem até que um dia a menina não chegou em casa.
Havia torcido o tornozelo na escola e então estava com a perna direita imóvel,  engessada até o joelho.
A avó da menina não era avó de sangue e morava com sua filha única, que era casada e tinha duas filhas. Mas sempre gostava de passar as férias e um pouco mais junto com as crianças.
A menina ficou uma semana de molho em casa e não saía do colo da avó. Era uma ligação fortíssima entre as duas. Um carinho puro e conservador.
O gesso foi arrancado e a menina já estava pronta para voltar à escola.
Uma semana depois, recebeu a notícia de sua mãe, de que a avó estava  no hospital, com um problema grave. Havia tido um AVC. No começo a menina não pode ir visitá-la no hospital. Os médicos disseram que tudo logo ficaria bem. Mentira. Era notável a situação.
Dias depois, a avó já estava em casa, então a menina fora visitá-la. Ao olhar seu semblante pode ver que não restaria muito tempo naquele mundo. A senhora passava mais tempo dormindo do que acordada.
A menina fez ficar ali, olhando-a enquanto ela dormia.
Horas depois, vieram as enfermeiras que trabalhavam na casa de sua filha única, para poder trocar a fralda e medicá-la. Ela estava acordada. A menina segurava sua mão e a senhora a olhara fixamente nos olhos e apertara sua mão com toda força que pode.
A garotinha pudera sentir que estava perdendo a avó.
Mas algo a surpreendeu. A senhora tirou debaixo do seu travesseiro a caixa velha onde as cartas de baralho ficavam e entregou-a na mão da menina.
Ela agora sabia que carregaria, guardaria e cuidaria daquilo até quando não pudesse mais.
Foi então quando a senhora de cabelos louros escuro bem escovados, unhas grandes, bem feitas e bem pintadas e com cheirinho de talco deu seu último suspiro.
A menina não se conteve. As lágrimas logo vieram.Os soluços que não paravam...
As mãos permaneciam trêmulas. Não era de se surpreender o que ocorrera.
Anos passaram e a caixinha onde as cartas ficavam ainda está com a menina.