sábado, 25 de junho de 2011

Estranheza sem tamanho

Sem que eu perceba, as horas vão passando.
Fecho os olhos, respiro e tenho vontade de chorar.
Sinto meu corpo pesado, na cama. Sinto uma sensação esquisita, de flutuação. Cada vez vou chegando mais perto do teto e o barulho aumenta. Abro o olhos e não posso mover meus braços e nem pernas, é aterrorizante.
Tudo parece tão real...Não posso mais sentir meu corpo pesar sobre a cama.
Não há mais cama. Não há mais nada.
Sinto aos poucos meu corpo voltar e o barulho estrondoso diminuir.
Sei que estou sonhando..Mas uma outra vez, eu, acordada senti a mesma sensação.
Parece que quanto mais se quer longe, aos poucos torna-se mais perto.
Não quero a sensitividade perto de mim. Já havia a esquecido...ou pelo menos achava.

terça-feira, 21 de junho de 2011

(In) Existente

Entro por aquela porta e posso ver tudo de perto agora.
As coisas não são mais como eram antes.
Tudo mudou desde o dia em que acreditei que ele estaria perto de mim.
Seu nome é Pedro.
Pedro sem sobrenome.
O tal Pedro do teste.
O Pedro que era apaixonado por uma mulher inconstante;
Uma metamorfose ambulante.
O mesmo Pedro que é lembrado por  outras duas mulheres.
O homem que não tem sapatos pra calçar;
Não tem roupa pra despir;
E que sozinho não sabe pra onde seguir.
Não sente frio nem calor. E o que eu quero que sinta, é apenas o amor.
Pedro.
O homem que se cala diante de problemas que nem ele mesmo pode resolver.
O homem que aparece e desaparece.
O homem cuja essência é mutável.
Pedro é o homem cuja aparência ninguém sabe descrever. E que apenas sobrevive com palavras, falas e pensamentos.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Dois ímpares, dois pares

O "não saber quando" é o que faz com que a inconstância chegue mais perto de mim; assim sem avisar mesmo.
Fico pensando o quão isso é esquisito. Mas também não fico pensando muito. Apenas observo e faço minhas anotações mentais.
Minhas mãos estão gélidas, e a loucura está invadindo parte de mim. 
Ms, apesar de ser uma loucura lúcida, continua sendo loucura. Ou não! Ou talvez há de ser assim.
O que posso fazer se é o que me traz em pedaços a alegria?
Alegria essa que como um quebra-cabeça, vou montando aos poucos em mim as peças que aparecem. 
Alegria de estar.
Alegria dividida em dois.
Dois ímpares, dois pares.

domingo, 5 de junho de 2011

Quase vulcão

A cada passo que dou, meus pensamentos fogem da minha cabeça. Não vejo mais nada além da escuridão. O preto é  incessante.
O que está havendo?
Não consigo mais controlar os meu pés. Eles querem sair daqui.
Meu cérebro comanda, mas  minhas pernas não obedecem. Talvez minha vontade de sair não seja grande o suficiente. Ou talvez seja sim, mas as circunstâncias, por hora, não me deixam seguir.
Agora minha visão está limpando. Posso ver a cretinice e o cinismo embutido nas pessoas. E mesmo que tentemos, não há como acalmar  a alta  maré da mediocridade.
Às vezes, a intolerância persegue-me sem que eu perceba, e no rosto pálido como de costume, a expressividade usa seus artifícios para disfarçar a inconstância em que estou.
A expressão?
Quase não muda; mas por dentro sinto que a irritabilidade está subindo lentamente até que a vontade de não estar, me domine por completo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Coisinha boa de se ler

Adriana Falcão - Palavras



As gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição.

Os poetas classificam as palavras pela alma porque gostam de brincar com elas e pra brincar com elas é preciso ter intimidade primeiro.
É a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, se coloca entre o significante e o significado pra dizer o que quer dar sentimento às coisas, fazer sentido.
Nada é mais fúnebre que a palavra fúnebre.
Nada é mais amarelo do que o amarelo-palavra.
Nada é mais concreto do que as letras c.o.n.c.r.e.t.o, dispostas nessa ordem e ditas dessa forma, assim, concreto, e já se disse tudo, pois as palavras agem, sentem e falam por elas próprias.
A palavra nuvem, chove.
A palavra triste, chora.
A palavra sono, dorme.
A palavra tempo, passa.
A palavra fogo, queima.
A palavra faca, corta.
A palavra carro, corre.
A palavra palavra, diz o que quer. E nunca desdiz depois.
As palavras têm corpo e alma, mas são diferentes das pessoas em vários pontos. As palavras dizem o que querem, está dito, e ponto.
As palavras são sinceras, as segundas intenções são sempre das pessoas.
A palavra juro não mente.
A palavra mando não rouba.
A palavra cor não destoa.
A palavra sou não vira casaca.
A palavra liberdade não se prende.
A palavra amor não se acaba.
A palavra idéia não muda. Palavras nunca mudam de idéia.
Palavras sempre sabem o que querem.
Quero não será desisto.
Sim nunca jamais será não.
Árvore não será madeira.
Lagarta não será borboleta.
Felicidade não será traição.
Tesão nunca será amizade.
Sexta-feira não vira Sábado nem depois da meia-noite.
Noite nunca vai ser manhã.
Um não serão dois em tempo algum.
Dois não serão solidão.
Dor não será constantemente.
Semente nunca será flor.
As palavras também tem raízes, mas não se parecem com plantas, a não ser algumas delas: verde, caule, folha, gota.
As células das palavras são as letras. Algumas são mais importantes que outras.
As consoantes são um tanto insolentes. Roubam as vogais pra construírem sílabas e obrigam a língua a dançar dentro da boca. A boca abre ou fecha quando a vogal manda.
As palavras fechadas nem sempre são mais tímidas. A palavra sem-vergonha está aí de prova.
Prova é uma palavra difícil.
Porta é uma palavra que fecha.
Janela é uma palavra que abre.
Entreaberto é uma palavra que vaza.
Vigésimo é uma palavra bem alta.
Carinho é uma palavra que falta.
Miséria é uma palavra que sobra.
A palavra óculos é séria.
Cambalhota é uma palavra engraçada.
A palavra lágrima é triste.
A palavra catástrofe é trágica.
A palavra súbito é rápida.
Demoradamente é uma palavra lenta.
Espelho é uma palavra prata.
Ótimo é uma palavra ótima.
Queijo é uma palavra rato.
Rato é uma palavra rua.
Existem palavras frias como mármore.
Existem palavras quentes como sangue.
Existem palavras mangue, caranguejo.
Existem palavras lusas, Alentejo.
Existem palavras itálicas, ciao.
Existem palavras grandes, anticonstitucional.
Existem palavras pequenas: microscópio, minúsculo, molécula, partícula, quinhão, grão, covardia.
Existem palavras dia: feijoada, praia, boné, guarda-sol.
Existem palavras bonitas: madrugada.
Existem palavras complicadas: enigma, trigonometria, adolescente, casal.
Existem palavras mágicas: shazam, abracadabra,pirlimpimpim, sim e não.
Existem palavras que dispensam imagens: nunca, vazio, nada, escuridão.
Existem palavras sozinhas: eu, um, apenas, sertão.
Existem palavras plurais: mais, muito, coletivo, milhão.
Existem palavras que são palavrão.
Existem palavras pesadas: chumbo, elefante, tonelada.
Existem palavras doces: goiabada, marshmallow, quindim, bombom.
Existem palavras que andam: automóvel.
Existem palavras imóveis: montanha.
Existem palavras cariocas: Corcovado.
Existem palavras completas: elas todas.
Toda a palavra tem a cara do seu significado. A palavra pela palavra, tirando o seu significado fica estranha. Palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra não diz nada, é só letra e som.